O poder da depressão

Para escrever este post convidei minha irmã, queria que ela também colocasse um pouco de como vê a depressão e como acha que é possível ajudar alguém que sofre deste mal. Recebi muitos comentários agoniados e até desesperados, a todos eu sugiro calma, a depressão pode ser uma forte fonte de destruição não só de quem a tem, mas também de quem convive, sendo assim fiquem atentos e não se deixem levar pelo rodamoinho. Já aproveito e agradeço à minha irmã pela participação no blog e também por todos os outros essenciais momentos de apoio e por estar sempre ao meu lado, este é o grande pilar que me mantém com a sanidade necessária para seguir em frente e não desmoronar.

Imagine que seu filho comece a apresentar sintomas de uma doença rara e incurável aos quatro anos. Você é um profissional em boa posição, classe média, tem recursos para levar seu filho a diversos médicos, nenhum deles no Brasil descobre a doença. Em Buenos Aires, na Argentina, um médico faz o diagnóstico: gangliosidose GN1 tipo 2. Quando voltam ao Brasil, você e seu filho ouvem: ‘não há nada a fazer’, quem dá esta sentença desesperadora para qualquer pai é um médico. Decidido a salvar seu filho, você larga seu emprego e passar a estudar obstinadamente esta doença na biblioteca de uma faculdade de medicina. Depois de muito tempo pesquisando, você descobre um processo homeopático que ajuda o organismo a trabalhar, assim, passa a ter a fórmula de um medicamento para o seu filho. Você salvou a vida do seu filho.

Mas as coisas não são tão simples ou fáceis. Durante todo este período você não trabalhou, os gastos com pesquisas foram altos e você está completamente sem renda. As prestações de sua casa não foram pagas e ela irá a leilão. Em um das audiências com o banco credor, você pede à juíza a chance de explicar o motivo do não pagamento da dívida. Perante à história do seu filho, ela pede toda a documentação e o orienta a fazer uma campanha para arrecadar recursos. Em uma decisão inédita da Justiça brasileira, o dinheiro do fundo que a Justiça mantém com as penas pecuniárias é utilizado para quitar sua dívida com o banco e a casa passa a ser sua. Seu filho tem uma qualidade de vida bem melhor, estuda e a fórmula pesquisada por você já ajuda outros dois jovens com a mesma doença.

Essa história de superação, amor e vitória poderia ter um final feliz. É uma história real que foi matéria no jornal Folha de S. Paulo. Além dos diversos vilões citados acima, ela tem outro que foi capaz de separar esta família, veja depoimento do pai:

“Ela (mulher e mãe de seu filho) ficou mais doente que meu filho e eu não percebi. Até hoje ela não saiu da depressão. Se eu pudesse voltar atrás, teria agido de outra forma, mas, na época minha decisão era salvar a vida do meu filho e eu tinha muito trabalho”

O pai que tanto lutou para salvar seu filho cuida dele sozinho, separou-se da mulher há três anos, por causa da depressão ela não pode ajudá-lo nos cuidados do filho. O propósito deste blog não é julgar – coisa tão comum na depressão, mas sim compreender a doença. A depressão é sorrateira, muitas vezes vai se alastrando e não percebemos. Por isso é importante deixar de lado toda nosso ímpeto de julgar: você é isso, é aquilo, precisa ser forte, precisa reagir, isso não é pra tanto. Temos que aceitar que depressão é uma doença, até 2030, segundo a Organização Mundial da Saúde, será a doença que mais atinge pessoas no mundo. Temos que aceitar que não somos médicos, muito menos psiquiatras, para avaliar se alguém está triste ou deprimido. Temos que aceitar que nossos entes queridos e nós mesmos podemos estar doentes, precisamos de ajuda, precisamos de remédios, precisamos de tratamentos.

Depressão é uma doença cruel, destrói famílias, carreiras, vidas. O preconceito e a ignorância são os piores atores neste processo. Como preconceito destaco, quem conhece alguém com depressão ou já teve sabe muito bem como é, aquelas frases insuportáveis ‘isso passa’, ‘faz uma viagem’, ‘sai de casa, passeia’, ‘seu mal é não ter com o que se preocupar de verdade’, ‘tem tanta gente pior que você’, ‘dê valor à vida’. Combater o preconceito é papel de todos nós que convivemos com alguém com depressão ou nos recuperamos, não é papel de quem está sofrendo com a doença, seria um peso absurdo a carregar além da própria doença. Claro que o poder público tem um papel fundamental, mas no Brasil isso parece mais uma piada. Na Inglaterra há uma campanha com relatos verdadeiros sobre pessoas com transtornos como depressão para conscientizar a população. Já como ignorância destaco a que, para mim, é a mais violenta e cruel: de médicos. Por experiência própria já vi profissionais da medicina ignorarem pacientes em depressão, tratarem a doença com descaso ou nem mesmo diagnosticá-la, e vivo em uma das maiores cidades do país.

Por fim, deixo aqui uma frase que ouvi de uma pessoa que amo muito e que tem depressão, nesse momento, em que eu deveria dar forças a ela, o contrário aconteceu: “não há bem que dure pra sempre e nem mal que nunca se acabe”. Peço todos os dias a Deus que ajude os que convivem com esta doença, seja dentro de si, marcando suas almas, seja com parentes e pessoas amadas. Peço também que todos tenham a oportunidade de pedir ajuda, de chorar, de conversar, de trocar experiências. Acredito no poder da Internet para isso, conversar e ler sobre quem passa por dificuldades semelhantes é um alento e uma fonte de força. Gostaria de poder abraçar cada pessoa que está lendo este texto, como diria minha avó querida, que também sofreu com depressão em uma época em que a doença era um mal muito mais incompreendido, um abraço é um santo remédio.

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Uma resposta para “O poder da depressão”

  1. Guia prático de como ajudar alguém com depressão « Minha mãe tem depressão Disse:

    [...] temos alguns posts (Luta sem fim, O poder da depressão, Como ajudar alguém com depressão?) aqui no blog sobre como ajudar alguém com depressão, mas a [...]

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